Uma própolis vermelha identificada na Amazônia mostra potencial contra bactérias super-resistentes e avança como uma possibilidade terapêutica para a leishmaniose cutânea

Abelhas trabalham nas caixas de criação, onde é produzida a própolis, substância natural que vem despertando o interesse da ciência pelo potencial no combate a bactérias resistentes e no desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas.
Na rotina silenciosa de hospitais ao redor do mundo, um inimigo cresce sem alarde: bactérias que já não respondem aos antibióticos disponíveis. Elas prolongam internações, encarecem tratamentos e, em muitos casos, tornam infecções comuns letais. Diante desse cenário, considerado uma das maiores ameaças à saúde global, a ciência busca respostas em lugares cada vez menos óbvios, como no interior de uma colmeia.
Pois foi em uma dessas colmeias da Amazônia Legal que surgiu uma descoberta inédita: uma variedade de própolis vermelha com ação eficaz contra bactérias super-resistentes e potencial de uso com menos efeitos colaterais. O estudo é conduzido por pesquisadores da Rede FitoAmazônia e tem entre seus coordenadores o professor doutor Richard Pereira Dutra, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em Imperatriz. Químico de formação, o professor é responsável pelo Núcleo de Prospecção, Caracterização e Desenvolvimento de Bioprodutos (Nubip).
Mas o alcance da descoberta pode ir além das infecções bacterianas. Testes recentes com a mesma própolis indicam atividade contra Leishmania amazonensis, protozoário associado à leishmaniose tegumentar, uma forma da doença que se manifesta principalmente por lesões cutâneas. O Maranhão e a região amazônica são áreas endêmicas das leishmanioses, o que reforça a relevância desses achados para a saúde pública regional.
Entre a crise dos antibióticos e o desafio persistente das doenças negligenciadas, a própolis vermelha amazônica surge como um elo inesperado, e promissor, entre ciência, biodiversidade e saúde pública.
Superbactérias no radar da ciência
Um dos resultados mais promissores da pesquisa da Rede FitoAmazônia mostra o potencial da própolis vermelha no combate a infecções resistentes aos antibióticos. Segundo o professor Richard Dutra, o avanço das superbactérias tem levado a ciência a mudar de estratégia.
“Não é só criar novos antibióticos, a gente começa a apostar em caminhos diferentes, como o uso de compostos da biodiversidade aliados à nanotecnologia”, explica.
De fato, as pesquisas coordenadas por ele indicam que a própolis vermelha da Amazônia pode ir além do uso tradicional. Ao ser utilizada na produção de nanopartículas de prata, a substância passa a integrar uma nova geração de soluções terapêuticas, considerada uma das apostas mais promissoras no combate às bactérias multirresistentes.
Na prática, isso representa uma mudança de paradigma. Em vez de atuar como um antibiótico convencional, que geralmente atinge um único alvo na bactéria, essas nanopartículas de dimensões entre 1 e 100 nm (nanômetros), agem em várias frentes ao mesmo tempo. Elas danificam a parede celular, interferem na respiração, afetam a produção de energia e ainda comprometem o material genético dos microrganismos. Essa ação múltipla dificulta, e muito, que as bactérias consigam desenvolver resistência bacteriana.

Própolis vermelha é manipulada em laboratório para estudos sobre seu potencial no combate a bactérias multirresistentes
E é nesse ponto que a própolis amazônica se destaca. Os compostos naturais presentes na resina, especialmente flavonoides como a calicosina, são capazes de formar e estabilizar essas partículas em um processo conhecido como síntese verde. Diferente dos métodos industriais tradicionais, que exigem altas temperaturas, pressões elevadas e o uso de agentes químicos potencialmente tóxicos, essa abordagem é mais simples, mais barata e ambientalmente sustentável.
“As nanopartículas produzidas utilizando a própolis demonstraram forte ação contra bactérias, especialmente a Escherichia coli, uma das mais comuns em infecções humanas. O desempenho foi superior ao do extrato bruto da própolis, indicando que a combinação com a nanotecnologia potencializa seus efeitos”, destaca.
Outro dado relevante é a segurança. Nos testes realizados, as nanopartículas foram eficazes contra as bactérias sem apresentar toxicidade significativa para células de defesa do organismo, como os macrófagos, ou seja, conseguiram eliminar os microrganismos sem causar danos às células saudáveis. Isso abre caminho para aplicações biomédicas mais amplas, com menor risco de efeitos colaterais.
“Muitos dos medicamentos que usamos hoje já não funcionam para determinadas cepas resistentes. A própolis tem uma vantagem importante: por ser formada por várias substâncias, ela age de maneira mais complexa, dificultando a adaptação das bactérias”, afirma Richard Dutra.
Os estudos também indicam um ponto crucial: a possibilidade de tratamentos mais seguros. As nanopartículas produzidas com própolis vermelha amazônica demonstraram ação seletiva, ou seja, conseguem combater bactérias em concentrações mais baixas do que aquelas que causariam danos às células de defesa do próprio organismo. Além disso, o próprio processo de produção, baseado na chamada síntese verde, dispensa o uso de substâncias químicas tóxicas, tornando a abordagem potencialmente mais segura tanto para o paciente quanto para o meio ambiente.

Tudo isso representa um avanço relevante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência aos antimicrobianos está entre as dez maiores ameaças à saúde global. O problema já afeta países de todos os níveis de renda e compromete o tratamento de infecções comuns, como urinárias, respiratórias e sexualmente transmissíveis, além de doenças como pneumonia e tuberculose.
Contra a leishmaniose cutânea: um caminho promissor
Outro resultado que anima os pesquisadores é o potencial da própolis vermelha amazônica no combate à leishmaniose tegumentar, uma doença negligenciada marcada por tratamentos longos, tóxicos e nem sempre eficazes. Essa forma da doença se manifesta principalmente por lesões cutâneas, podendo causar impactos físicos e sociais relevantes aos pacientes.

É nesse cenário que a própolis entra como uma alternativa promissora. Em laboratório, a substância demonstrou uma forte ação contra Leishmania amazonensis, o protozoário causador da doença. “Os dados iniciais mostram o seguinte: se eu colocar em contato o protozoário com o extrato da própolis, ele morre”, afirma o pesquisador.
Estudos mais detalhados identificaram compostos específicos responsáveis por esse efeito. Entre eles, a liquiritigenina se destaca por induzir a morte de até 94,7% das formas do parasita analisadas. Outras substâncias, como calicosina e formononetina, também apresentaram atividade relevante no combate à Leishmania. Outro ponto considerado decisivo é a segurança. Diferentemente de muitos tratamentos atuais, a própolis e suas frações mais ativas não apresentaram toxicidade para células saudáveis em níveis eficazes contra o parasita, o que indica potencial para terapias menos agressivas ao organismo.
Os resultados obtidos até o momento são oriundos de estudos in vitro, representando uma etapa inicial, porém essencial, no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas.
Da colmeia ao laboratório: novos produtos em desenvolvimento
Conforme explica o professor, os estudos com a própolis vermelha amazônica avançam em diferentes frentes. Os primeiros resultados foram obtidos em testes in vitro, com culturas do parasita Leishmania amazonensis e células de defesa, indicando ação direta contra o protozoário.

Professor Richard Dutra, coordenador da pesquisa, ao lado de parte da equipe envolvida nos estudos com a própolis vermelha
Um estudo recente desenvolvido pelo pesquisador Kelcio Pereira Miranda, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Tecnologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), resultou na criação de uma bebida fermentada inédita do tipo kombucha, à base de própolis vermelha amazônica e mel. A formulação apresentou atividade antibacteriana e antioxidante e deu origem ao depósito de um pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), representando uma abordagem inovadora para a aplicação da própolis vermelha.
Em etapas posteriores, a pesquisa foi ampliada no mesmo programa de pós-graduação, com a incorporação de mel de tiúba, produzido por abelhas sem ferrão (Melipona fasciculata), em estudo conduzido pela pesquisadora Bruna Moura Cardoso Sousa, além da realização de testes sensoriais para avaliação da aceitação da bebida. Em modelos animais, a formulação vem sendo avaliada quanto ao seu potencial anti-inflamatório, com resultados preliminares considerados promissores, conforme investigações conduzidas pelo pesquisador Jefereson Noslen Casarin.
Das abelhas à descoberta inédita
A descoberta da própolis vermelha na Amazônia Legal começou quase por acaso e com desconfiança. Em 2017, o professor Richard Dutra foi procurado por um ex-aluno, Lourival da Silva Fernandes, que havia iniciado a criação de abelhas em uma propriedade de 25 hectares em Esperantina, no Tocantins.

O interesse vinha de antes. Ainda na graduação, em 2014, Lourival teve contato com a pesquisa científica. Anos depois, já como produtor, decidiu investir na atividade e adquiriu oito colmeias da espécie Apis mellifera, conhecidas como abelhas africanizadas, um tipo de abelha com ferrão, que foram distribuídas pela vegetação da área. Foi logo no primeiro mês que algo chamou atenção. “Quando abri as caixas, vi uma resina avermelhada”, conta Lourival. A suspeita foi levada ao laboratório. “Falei para o professor Richard que parecia própolis vermelha. Ele riu e disse que eu estava delirando”, relembra.
O apicultor Lourival da Silva Fernandes
A reação tinha motivo. Até então, esse tipo de própolis era associado quase exclusivamente ao litoral do Nordeste, especialmente às áreas próximas de manguezais da Bahia e de Alagoas. A hipótese de encontrá-la na Amazônia Legal parecia improvável. Mas não era.
A confirmação abriu um novo campo de pesquisa. Entre o fim de 2017 e o início de 2018, começaram os primeiros estudos científicos sobre a substância, um achado hoje considerado inédito no país, que atualmente conta com financiamento da Rede FitoAmazônia.
As análises revelaram que a própolis vermelha produzida na região amazônica apresenta características próprias, distintas das já conhecidas em outras partes do país. Embora compartilhe semelhanças com a própolis vermelha da Bahia e de Alagoas, a variedade amazônica possui concentrações diferenciadas de compostos bioativos, o que pode ampliar seu potencial terapêutico.

Caixas de criação de abelhas na propriedade de Lourival da Silva Fernandes, em Esperantina, no Tocantins. A confirmação da produção de própolis vermelha abriu um novo campo de pesquisa.
Entre as substâncias identificadas, destacam-se duas classes químicas consideradas raras em outros tipos de própolis: os isoflavonoides e as benzofenonas polipreniladas. Esses compostos estão associados a importantes efeitos biológicos, como ação antimicrobiana, antifúngica, anti-inflamatória e até leishmanicida, já demonstrada em estudos iniciais conduzidos pelos pesquisadores.
“É possível que, no futuro, a gente encontre essa própolis em outras áreas da Amazônia, inclusive no Maranhão”, afirma o professor Richard.
A hipótese se baseia no fato de que as abelhas utilizam resinas de plantas específicas, que não estão restritas a um único território dentro do bioma. No entanto, o professor destaca que não há, até o momento, uma identificação completa das espécies vegetais utilizadas pelas abelhas na produção da própolis vermelha na região. Mapear essas fontes naturais é um dos próximos passos da pesquisa.
Esse avanço pode ter impacto também fora do laboratório. Ao identificar as plantas envolvidas e compreender melhor o processo de produção, abre-se caminho para ampliar a atividade, com potencial de gerar renda para produtores da região.
Hoje, apenas duas propriedades na Amazônia Legal produzem esse tipo de própolis: a de Lourival, em Esperantina; e outra em São João do Araguaia, no Pará, dos produtores Thiago e Isabela Simão. A produção ainda é pequena e sazonal. Lourival, o mais ativo, mantém 21 colmeias e produz entre 150 e 200 gramas por mês em cada colmeia, fora do período chuvoso. A atividade funciona como renda complementar. Com até dois auxiliares no manejo, ele comercializa toda a produção em Imperatriz, principalmente na forma de extrato alcoólico, vendido a cerca de R$ 45 o frasco de 30 ml.
A cor que revela a origem
A coloração da própolis está diretamente ligada à sua origem botânica e ao comportamento das abelhas, como no caso da própolis verde, que é produzida a partir de resinas coletadas da planta Baccharis dracunculifolia, conhecida como vassourinha. Já a própolis vermelha segue outro caminho: as abelhas retiram substâncias diretamente do caule de espécies específicas, o que altera não só a coloração, mas também a composição química e o potencial biológico da própolis, diferença que ajuda a explicar o interesse científico em torno do material encontrado na Amazônia.
O professor Richard Dutra explica que as diferenças entre a própolis verde e a vermelha vão muito além da cor. Elas envolvem as plantas utilizadas pelas abelhas, as características da produção e até os resultados e propriedades de cada tipo. Na Amazônia Legal, a própolis vermelha apresenta particularidades que vêm sendo investigadas pelos pesquisadores da rede.
As abelhas não produzem a própolis do zero. Operárias especializadas saem da colmeia em busca de resinas em cascas, brotos e exsudatos de plantas. Com as mandíbulas, raspam o material, misturam com secreções próprias e o transportam nas patas traseiras, nas chamadas corbículas. De volta ao enxame, essa matéria-prima passa por um processo coletivo: é combinada com cera e enzimas, dando origem à própolis.
Dentro da colmeia, o trabalho é dividido. Enquanto algumas abelhas coletam néctar para produzir mel, outras se dedicam à coleta de resinas. Essa organização sustenta colônias com milhares de indivíduos e garante a produção de uma substância essencial para a sobrevivência do grupo.

Para saber mais:
Brazilian Amazon red propolis as a sustainable resource for the green synthesis of antibacterial silver nanoparticles
Roberto Pereira Santos; Jaqueline Daniele Santos Barros; Euzinete Borges Pereira; Karla Gabriela Mota de Oliveira; Gabriel Sousa Brito; Fernanda Farias Costa; Queli Cristina Fidelis; Aramys Silva Reis; Carlos Alexandre Holanda; Richard Pereira Dutra.
Disponível em:https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0168165625001427
Brazilian Amazon Red Propolis: Leishmanicidal Activity and Chemical Composition of a New Variety of Red Propolis
Richard Pereira Dutra; Marcos Marinho de Sousa Jr; Maria Simone Pereira Maciel Mignoni; Karla Gabriela Mota de Oliveira; Euzineti Borges Pereira; Aline Santana Figueredo; Arthur André Castro da Costa; Tatielle Gomes Dias; Cleydlenne Costa Vasconcelos; Lucilene Amorim Silva; Aramys Silva Reis; Alberto Jorge Oliveira Lopes.
Disponível no link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37755307/
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Redação e edição: Thaísa Bueno
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